Algo em comum

Eu e Matheus somos muito diferentes.

Eu nasci numa cidade de 20 milhões de habitantes. Ele, numa cidadezinha de 30 mil. Eu sou de São Paulo. Ele é da Bahia. Eu fui criança de apartamento, de asfalto. Ele foi menino de carrinho de rolimã e bola de gude. Eu mudei seis vezes de escola. Ele estudou em colégio interno. Eu gosto de pop, ele gosta de rock. Eu gosto de Chico, ele de Bob Marley. Eu alisei o cabelo. Ele trançou o dele. Eu gosto de bife com batata frita. Ele, sarapatel. Eu gosto de milk shake, ele de açai.

Eu quero que Levi estude piano. Ele quer que seja guitarra. Eu quero que Levi faça hipismo, ele, capoeira. Eu quero que Levi vista a camiseta do Relâmpago Mcquenn, ele quer o filho de camiseta de caveira. Ele quer que Papai Noel traga um skate. Eu quero que ele traga uma bicicleta. Com rodinha.

Eu quero ver Levi feliz. Matheus também.

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Ainda existe um fio de esperança

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Depois de, oficialmente, dirigir há 20 anos ( porque extra-oficialmente dirijo desde os 16), hoje meu pé soltou de algum pedal e meu carro acertou em cheio a lanterna do carro da frente. Claro que o carro da frente não era um Gol, um Uno, um Palio e, sim, uma Mitsubishi Outlander. Lógico…

Quem me conhece sabe o quanto eu estou cansada de São Paulo, do trânsito, do caos, do paulistano, mesmo sendo uma paulistana, e que não vejo a hora de concretizar meu sonho de ir embora daqui.

Pois bem, como ando exausta, mental e fisicamente, nem me dei ao trabalho de descer do carro. Puxei o freio de mão, liguei o pisca-alerta e respirei fundo, na certeza de que do outro carro ia descer um troglodita me chamando de barbeira, me mandando pilotar fogão, dizendo que eu ia ser a culpada por ele chegar 5 minutos atrasado em algum compromisso e apontando o dedo na minha cara pra falar que eu ia ter que pagar o conserto.

Respirei, falei ” PQP, preciso me benzer” e vi descer do carro uma mulher. Ela chegou na minha janela e falou a seguinte frase:
– Essa rua é um horror, né, uma loucura. Todo dia alguém deve bater o carro aqui.

Eu, sem saber o que responder, só concordei, assumi a culpa e o prejuízo. Expliquei que meu pé tinha escapado da embreagem, do acelerador, do freio, sei lá de onde.

Então ela disse:
– Olha, pra gente não ficar aqui atrapalhando o trânsito, me dá seu telefone, que depois eu te ligo e a gente conversa sobre o conserto.

– Além da lanterna quebrada, eu amassei seu carro?

– Não, tem um arranhãozinho ali, mas acho que polindo sai.

Ufa, acho que polindo sai.

E eu dei meus dois telefones, o de casa e o celular. Ela não anotou a placa do meu carro, não pediu um cartão, um documento, nada, falou ” eu te ligo” e foi embora.

Ela acreditou que eu dei os telefones certos, que eu chamo Juliana, entendeu que acidentes acontecem e me fez voltar a ter um mínimo de esperança no paulistano.

Não, não são todos que moram nesta cidade que estão estressados, briguentos, estúpidos e com a paciência do tamanho de uma ervilha. Pelo menos uma pessoa, a ruiva do Outlander, não está. E no meio de tantos milhões de carros, meu pé escapou bem na traseira do carro dela. Obrigada, Deus.

*

Eu continuo querendo ir embora daqui e espero que quando você, Levi, ler esta história, São Paulo seja apenas uma cidade pra vir passear.

Valores

Neste fim-de-semana bombou na internet a capa da Vejinha São Paulo, sobre os Sultões do Camarote. Não viu? Tá perdendo uma das histórias mais bizarras e engraçadas de todos os tempos.

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Segue o link da matéria: http://vejasp.abril.com.br/materia/os-sultoes-dos-camarotes-fortunas-baladas-noite
e do video: http://vejasp.abril.com.br/materia/reis-do-camarote

Imagino que todas as mães e pais tem como maior desafio, passar bons valores morais para seus filhos. Talvez eles absorvam estes valores, talvez não. Aí está o desafio. Você pode ter dez filhos, ensinar os mesmos valores para todos e um deles seguir por outro caminho, virar bandido, drogado, vagabundo. Quase toda família tem uma ovelha desgarrada. Não adianta esconder.

Os valores morais variam de família pra família e cabe a cada pai e mãe ensinar o que acha certo e errado para seu filho.

Eu, por exemplo, acho errado ensinar pro meu filho que dinheiro compra tudo. Apesar de achar que no Brasil o dinheiro compra, sim, muuuuuitas coisas, não quero que Levi siga por este caminho. Quero um filho bem sucedido, não seria louca de dizer que dinheiro não é importante, mas quero que ele saiba usar este dinheiro de maneira correta. Deus me livre ter um filho que usa o dinheiro para ameaçar, conseguir vantagens, esbanjar e esnobar os que tem menos.

O que tem a ver meus valores com a capa da Vejinha?

Na verdade, quase nada. Acredito que cada um faz o que quer com o que ganha, não sendo filho meu. Se tem gente passando fome, morrendo de sede, a culpa não é do Rei do Camarote. É do governo. Ninguém é obrigado a fazer ação social. Se ele anda de Ferrari e a maioria da população anda em ônibus lotado, a culpa não é dele. Se ele trabalhou, não roubou ninguém, tá com os impostos em dia, que compre uma Ferrari, um barco, um helicóptero.

O que me intrigou mesmo nesta história, que acabou virando uma grande piada, foi imaginar quais os valores que estes pais passaram para este cara.

Em nenhum momento, na reportagem, é dito que ele trata mal as pessoas mais pobres, que ele ateia fogo em mendigos, que dirige bêbado matando inocentes. A reportagem só mostrou como ele se diverte, e do tanto que precisa pra isso. Que, resumindo, é uma pobre criança rica.

E, por fim, ele virou a chacota da semana.

Aí que eu imagino o pai e a mãe. Será que eles acham bacana o filho bancar a noitada da galera? Será que ele aprendeu isso com os pais? Será que os pais estão orgulhosos do filho sair na capa da revista? É isso que importa na vida? Será que pai bate no peito e fala: esse é meu garoto!! Que a mãe agora tá comentando com as amigas que o filhão bonachão ficou famoso?

Eu queria saber, por pura curiosidade. Ou será que eles não sabiam que o filho faz papel de tolo e acabaram de descobrir? São tantos “será”…

Já pensou que decepção saber que seu filho é visto como o bobo alegre da cidade?
Que você educou, ensinou seu bebê fofo a tratar bem as pessoas e ele levou isso tão ao pé da letra, a ponto de torrar cinquenta mil reais numa balada só pra tratar bem as pessoas, ter gente por perto, pra não deixar as meninas sem champanhe, pra arrumar namorada, mesmo que só por uma noite?

Eu morreria de vergonha se meu filho fizesse este papel. Ia me perguntar a famosa frase “onde foi que eu errei”.

O Rei do Camarote pode até ser uma afronta num país como o nosso, uma ofensa, uma provocação, mas a capacidade dele de lidar com isso me soou tão nula que eu mesmo não me sinto ofendida nem por ele nem pela revista.
Tenho pena. Na minha visão isso mais parece uma total incompetência para ter amigos ou amor. E pra suprir esta falta de competência, ele tem o dinheiro.

Tá cheio de gente como ele no Brasil e no resto do mundo. Até parece que ele é o único homem que usa carrão e dinheiro pra conquistar mulher e amigos. Até parece.

Ele foi o bobalhão que achou que estava abafando.