Proteloucos, parem.

Eu gosto de cachorro.

E eu sou azarada pra cachorro. O primeiro, Dino Chuchu Bolinha, sim, ele tinha três nomes porque cada filha escolheu um, era um poodle. Talvez fosse um poodle, nunca saberemos, porque meu pai deve ter comprado na Praça da República e não tinha essa coisa de certificado, pedigree. O moço falou “é um poodle” e meu pai acreditou.

Eu tinha uns cinco anos e pavor de cachorro. Dino cresceu e virou, praticamente, uma ovelha. Eu corria dele e ele corria pra mim. Era assustador.

Depois disso tivemos vários cachorros: Snoopy, Ringo Star, Ziggy Marley, Bob, Toddy, Tieta do Agreste, Nero, Boris, Igor, Katucha, Brad Pitt, Nega, Neguinha, Pirata, Brother. Era muito cachorro, impossível lembrar o nome de todos. Fui me acostumando e perdi o medo. Ficavam todos lá no sítio, tirando Ziggy e Tieta, que conseguiram convencer minha mãe e moravam lá em casa.

Mas como disse, sou azarada pra cachorro. Eles sempre morreram de forma trágica, nunca de morte morrida. Um comeu porco-espinho, a outra ficou presa no arame farpado, o outro foi embora com o caseiro pra nunca mais voltar, teve quem engoliu veneno do vizinho, o que a Nega arrancou uns pedaços e ele não resistiu, Igor que passou a ter ataques epiléticos até cair duro, Tieta que foi pro veterinário e de lá nunca mais saiu….

Enfim, o único sobrevivente nestes trinta e poucos anos é Buiú. Buiú já comeu porco espinho, já foi atropelado, já levou mordida, já deve ter comido veneno do vizinho e continua firme e forte. É quase um highlander do mundo animal.

Mas isso é pra dizer que Levi tem medo de cachorro. Ele tem três anos, tem medo de cachorro e é só medo de cachorro, não é desvio de caráter. Eu tenho medo de borboleta e sou absolutamente normal.

Por mim, tanto faz ele ter medo de cachorro ou não. Ele não é obrigado a gostar de nada, nem de cachorro, nem de alface, nem do amiguinho da classe, nem de pomba, que ele chama de bomba. Ele não pode maltratar, mas pode não gostar.

Só que pelo fato dele não gostar de cachorro, eu já quase fui linchada duas vezes. Linchada, modo de dizer.

A primeira tentativa de arrebentarem minha cara foi quando a gente adotou um cachorro na esperança de Levi perder o medo, assim como papai e mamãe fizeram com Dino Chuchu Bolinha. Só que o cachorro mordeu a cara do Levi, a cabeça do Pedrinho e antes de ter que enfiar uma criança no carro pra ir tomar ponto no hospital, devolvi o bichinho. E ouvi frases do tipo:

– Seu filho deve ter provocado. Você não teve paciência. O cachorro estava deprimido. Tem certeza que Levi não fez nada, não puxou o rabo, beliscou, colocou o dedo no olho, comeu a ração dele? Tem certeza? Que crueldade da sua parte fazer este animal ser abandonado pela segunda vez.

Sim, tenho certeza. Não, eu não abandonei o animal, eu devolvi para a pessoa que o achou.

A segunda tentativa de me colocarem amarrada em Praça Pública foi na semana passada. Estava com a pequena criança de três anos numa loja de comida. Lá dentro, uma moça com um cachorro. Na loja que vende comida. O cachorro veio na direção do Levi. Levi assustou, gritou, chorou e pulou no meu colo. Como eu não estava de tpm, pedi educadamente para a “mãe” colocar seu “filho” do outro lado, pra gente poder passar. Pronto, foi o suficiente para quase estourar a terceira guerra mundial.

– Mas ele é manso.
– Mas eu não te perguntei sobre o temperamento do seu cachorro. Só te pedi licença.
– Eu não vou sair daqui e nem mover meu cachorro. Ele é manso.
– Querida, eu preciso passar com meu filho. E seu cachorro está no meu caminho e isso é uma loja de comida de humanos, não é a Cobasi.
– Você é ridícula, seu filho é ridículo, eu sou bem-vinda aqui, sou amiga do dono, meu cachorro tem passe livre, é manso e se você não está satisfeita, saia você da loja, porque meu cachorro não vai sair.
Nisso já tinha entrado outra pessoa na loja e feito o mesmo pedido pra mocinha. Em vão.

Eu falei pro dono do estabelecimento estornar meu cartão, com o valor da minha compra, sugeri que ele abrisse um pet shop e fui embora. Com raiva, triste, com vontade de chorar, de cuspir na cara daquela menina (se alguém quiser argumentar contra este texto, não use esta parte do querer cuspir na cara dela, porque eu queria mesmo, mas não ia fazer isso) e sem entender nada. Por que esta menina não podia colocar o cachorro dela do outro lado pra eu passar? Eu não falei pra ela tirar o cachorro da loja. Só pedi pra ela mudar a guia da coleira pro outro pulso.

Meu apelo: Proteloucos de animais, parem com este exagero. Amem seus bichinhos, sejam protetores, adotem, façam campanhas,chamem de meu nenêm, invadam o Instituto Royal, ofereçam todo amor que existe dentro de seus corações a eles, tratem como um filho, mas não obriguem que o resto da população pense como vocês. Ainda existe gente que prefere gente, respeitem isso, assim como a gente respeita seus gestos honrosos. Estas suas atitudes só nos afasta da causa animal, tão linda e só nos faz achar que vocês tem sérios problemas emocionais e psicológicos.

Obs.: Proteloucos =protetores obsessivos e radicais
Protetores = pessoas bacanas que dedicam parte do seu tempo, do seu amor e do seu dinheiro para ajudar os animais.

Eu ia comprar um saco de bala de coco gelada. Não estou grávida mas queria comer bala de coco gelada. Acabei indo pra casa e não comprei a bala de coco gelada até agora. Outro dia eu compro, em outra loja.

Buiú, tomabado pelo Patrimônio Histórico.

Buiú, tomabado pelo Patrimônio Histórico.

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5 respostas em “Proteloucos, parem.

  1. Ju, vc sabe que eu sou louca por cachorros. Mas vc tem o meu apoio. Tem gente que rola ou não rola. Não tem jeito… e todos precisamos nos respeitar. Simples assim. Se no mundo as pessoas usassem apenas essa regrinha básica…… ahhhhh amiga, o mundo seria um verdadeiro paraíso….. bjkas. Ah, eu tb já devolvi um cachorro que ganhamos qdo os tri tinham quase 2 anos. O hott is direto na canelinha deles. Tentei por uma semana. Era apavorante…..

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  2. ju, realmente, mas realmente… eu sou protetora dos bichanos, seja qual for… Mas não concordo com pessoas desse tipo… Amiga do dono? e daí não te perguntei nada! Aliás dono da onde mesmo? preciso saber pra nunca entrar…. rsrsrs

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  3. Proteloucos…eh um belissimo texto. Amei!
    Menina, creia…quando Levi souber ler e entender as suas criticas ele vai amar tudo que vc escreve. Insisto na causa.
    PUBLIQUE UM LIVRO!
    Eu irei com muito prazer comprar uns 100 volumes pra dar de presente aos amigos dos meus netos.
    Sobre o “proteloucos” vc eh muita sutill ao falar dos eventos cotidianos. De verdade, AMEI!

    bjs, bjs

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  4. Oi Ju

    Estava morta de saudade dos seus textos que otimo que “tirou a poeira” rs

    Sou amente de cachorros tbm já tive varios mas hoje com filha e trabalhando fora vida corrida prefiro não ter pois acho que se temos um bichinho precisamos dedicar tempo e amor a eles sendo assim prefiro não ter, mas continuo amando do mesmo jeito… Também acho anda tendo um excesso nesse casos dos protetores APOIO sim toda proteção aos animais mas com todo cuidado pra não virar essa louca que você encontrou.

    Beijos e continue escrevendo!

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