Os Prata

Eu adoro ler os textos de Antonio Prata na Folha. Ele escrevia às quartas, agora escreve aos domingos, e suas histórias são sobre o cotidiano, gostosas de ler.

Tem um texto do Antonio Prata, que eu até guardei nos meus arquivos. Se não quiser ler meu texto todo, o texto dele está no final deste post.

E eu adoro Mario Prata. Sou super fã. Mario Prata é, alem de um super talento, engraçado demais. Ele já escreveu roteiro pra novela, teatro, cinema, série, já escreveu livros, daqueles que você vai lendo e chorando de rir ao mesmo tempo. Enfim, sou super fã. Sabe aquele cara que vai no programa do Jô Soares e quando acaba a entrevista, a platéia faz Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh? Mario Prata é bom de papo. E faz rir. Gente que faz rir é sempre bom.

E hoje, só hoje, eu descobri que um é pai do outro. Mario é pai de Antonio.
Descobri por acaso, porque Antonio escreveu no seu facebook:
“Já disse que meu filho se chama Antonio. Um dia, ele tinha uns quatro anos, dei uma bronca nele sei lá porque e ele me xingou, feroz:
– Você é uma anta!!!
No que eu, sem perder a calma, perguntei:
– Ah, é? E quem é filho de anta, o que quê é?
Pensou dois segundos e me desarmou completamente:
– Filho de anta é… é… Antonio!” Mario Prata

O filho seguiu a carreira do pai e tá indo direitinho. Quando ele era criança, imagino que via o pai sentado, com a máquina de escrever na frente e achava aquilo bacana.

Tem pai que quer que o filho seja engenheiro, porque ele é engenheiro e o filho se forma em nutrição. Que mal tem nisso? Nenhum. O filho só não queria ser engenheiro, queria ser nutricionista. Mas o pai fica p da vida. 

Meu pai é funcionário público. Desde que eu terminei o segundo grau, lá por 1992, ele não passa uma semana sequer sem me avisar sobre algum concurso público. Passaram-se mais de vinte anos, eu fiz faculdade, eu sou gente de humanas e eu não quero ser funcionária pública. Mas ele insiste:
– Ju, abriu inscrição para o concurso de agente sei lá do que do governo sei lá de onde?
– Mas pai, eu não quero ser agente sei lá do que. Fora que são 400 candidatos por vaga. É mais fácil eu entrar na faculdade de medicina. Tá bom, pai, eu vou fazer a inscrição.

Esse diálogo dura vinte anos e eu, com quase quarenta, ainda não tive nenhum poder de argumentação que convencesse meu pai a desistir de um sonho que é só dele, não meu.

Enfim, voltando aos Prata, acho sensacional o filho ter seguido os mesmos caminhos do pai. O pai escreve, ele escreve, o filho tá conseguindo seu lugar ao sol. E deve dar um grande orgulho pro Prata pai.
E descobrir que eles são pai e filho foi o melhor do dia pra mim. Claro que tinha que ter alguma ligação os dois terem o mesmo sobrenome. Eu que nunca havia me tocado e nem pesquisado.

Aqui o texto do Antonio, de 28/09/2011, que eu adoro:

Não funciona

Se os princípios da seleção natural valessem para os objetos criados pelo homem, estariam extintos há muito tempo o chuveiro elétrico, o repelente em espiral e o sachê de ketchup. É curioso: enquanto a natureza, esse monstro acéfalo, paga regiamente seu tributo à perfeição, mandando pro beleléu tudo o que não se adapta (alô, Neandertal!), nós toleramos uma quantidade absurda de inutensílios, como se suas existências fossem incontornáveis feito a morte, os impostos e a trilha sonora do vizinho. Não são! Com o intuito de facilitar um pouquinho nossa tão atribulada passagem pela Terra, fiz uma pequena lista com alguns desses estorvos.
Sachê de ketchup. A pior realização da humanidade, depois da versão orquestrada de Ilariê. Nas lanchonetes sempre nos dão logo cinco saquinhos, pois sabem que não conseguiremos abrir os quatro primeiros, mesmo que nos atraquemos com unhas e dentes àqueles sarcásticos dizeres: “Rasgue aqui”.
Chuveiro elétrico. A segunda pior realização da humanidade, depois do sachê de ketchup e da versão orquestrada de Ilariê. A água só esquenta de verdade se não abrirmos quase nada a torneira: sob o fiozinho escaldante que escorre da ducha (sic), é como se você estivesse com o cocuruto no Saara, a barriga no Ártico, a bunda na Patagônia e os pés -bem, não se preocupe com os pés, pois após cinco minutos eles terão congelado e perdido toda a sensibilidade.
Repelente em espiral. Tem um cheiro gostoso, remete-me à infância e é bonito de ver queimando no escuro; mas, enquanto me deleito em meio ao torpor hippie-praiano, pernilongos e borrachudos deleitam-se com meu sangue. Repelente em espiral só repele os mosquitos de si próprio. E olhe lá…
Rede. Rede é lindo, rede é Brasil, é um objeto maravilhoso -mas não para se deitar. Quando você encontra a posição das pernas, perde a da cabeça, quando ajeita a cabeça, desarruma as pernas… Acho que as redes deveriam ser penduradas abertas na parede, como um quadro, uma peça de tapeçaria.
Secador de mãos a ar. Funciona muito bem -se você não tiver mais nada a fazer pelo resto da tarde, além de ficar virando as mãos de um lado pro outro, dentro de um banheiro público, só para que o dono do estabelecimento economize R$ 0,05 em folhas de papel. E não me fale em ecologia, pois o secador é elétrico, somos todos adultos e sabemos que a eletricidade não vem da cegonha: por mais limpa que seja, é sempre fruto de alguma sacanagem com o ambiente.
Embalagens de plástico duro. Estou há uma semana tentando tirar meu mouse novo de uma dessas armaduras plásticas. Ontem, fui comprar uma tesoura e -inferno!- ela vinha com a mesma inviolável carapaça.
Quando nossa civilização acabar e só restarem ruínas, essas embalagens resistirão, incólumes. Sobre nós, dirão os homens do futuro: “Eram ignorantes, crédulos e autodestrutivos, mas, caramba, que embalagens produziam!”.
A lista das coisas que não funcionam é longa, caro leitor, mas a coluna é curta, de modo que devo parar por aqui. Prometo retomar o assunto noutra oportunidade e abordar uma variação muito importante do tema: as ideias que não funcionam. Adianto aqui algumas delas: pintar a própria casa, camping e relação a três. Até breve.

Ei, deixe meu filho único em paz

Da série ” Textos que eu gostaria de ter escrito”, aqui vai um que eu gosto bastante.

Não sou mãe de filho único. Levi tem dois irmãos por parte de pai, mas que moram longe e não se encontram.

Não está nos meus planos ter outros filhos. Se vierem, ótimo, mas não está nos planos.

E não importa quantos filhos você tem, se tiver dois meninos, sempre vão te perguntar:
– Quando vão tentar uma menininha?

Se tiverem cinco meninas, vão dizer:
– E o garotão, quando vem?

Se você não tiver nenhum, porque você pode não querer ter nenhum, aí ferrou, vão te infernizar.

Não adianta, a sociedade sempre vai achar que você é uma parideira.

Segue o texto, originalmente escrito aqui, por Fernanda Barbosa:

Ei, deixe meu filho único em paz!

  • Postado em16 de maio de 2013

Por: Fernanda Barbosa

Se você tem só um filho, logo vão lhe perguntar:

-E o próximo? Quando vem?

Se você, como eu, responder:

-Nunca.

… você está encrencada. Porque a sociedade não está preparada para filhos únicos, apesar das estatísticas oficiais dizerem que estamos, sim, preparados e engajados em 1,3 filhos ou 1,6… seja lá o que isso significa. Um filho e três carrinhos? Uma filha e seis bonequinhas Barbie? Enfim…

Diga que nunca vai querer o segundo filho e você logo terá uma resposta que duvida de sua convicção:

-Espere até ele ficar com uns 8 anos pra ver se não vai dar vontade de outro.

Estamos falando de filhos ou de drogas e abstinência?

Você também pode ter uma resposta provocativa, daquelas que duvidam de sua vocação de mãe:

-Dá trabalho, né?

Dá trabalho, sim, mas me daria trabalho ter 1,1 filho ou 1,3 ou 1,4, não importa. Não ter filhos também dá trabalho. Qualquer escolha de vida dá trabalho. Que observação esquisita!

-Mas não vai dar um irmãozinho pra brincar com ele?

Segundo filho é passatempo do primeiro? Não dá pra comprar meia dúzia de livros ou de quebra-cabeças para o primogênito?

O negócio é o seguinte: a sociedade diz que você pode tudo, mas se você tem alguma convicção que não está de acordo com as convicções que pairam no ar, ela lhe interroga, lhe cutuca, lhe testa a maldita paciência pra ver se você está mesmo certa da cabeça ou apenas amanheceu de bronca com o mundo, querendo contrariar.

Não, querida sociedade xereta, eu não quero ter o segundo filho. E eu convivia muito bem com isso, sem esbravejar minha posição por aí, até que ouvi essa pérola em reuniões de pais com a escola.

Mãe grávida pela quinta vez e doida para que nós também fizéssemos companhia a ela:

– Vocês não terão o segundo? (eu e mais outras três mães de filhos únicos)

-Eu penso em ter daqui a algum tempo – uma das mães respondeu.

-Penso muito nisso, mas não poderia dar todo o conforto que dou para a minha primeira – a outra mãe respondeu.

-Não – eu respondi.

Não gosto de intimidade com quem não conheço, aliás é uma de minhas birras com carioca (eu sou carioca, posso falar mal), então fui curta e grossa e, invariavelmente, isso me rende mais perguntas, apesar de minha intenção ser contrária a isso.

A mãe de quatro e meio:

– Mas eles fazem companhia uns aos outros e dá muito menos trabalho do que ter um só.

Eu, nas tamancas, mantendo a classe nas feições:

-A questão não é se um vai brincar com o outro ou não, a questão é de verdadeiramente estar preparada e querendo um segundo filho, não para que o segundo brinque com o primeiro, mas porque a família sente que falta alguém.

A outra mãe de filho único:

-E tem toda a questão da falta de tempo.

A mãe de 4,5:

-Mas filho único fica muito egoísta, não aprende a dividir, o mundo precisa de família grande.

E então eu me enchi:

-Primeiro, conheço muitos irmãos que se odeiam, que não se falam, então esse negócio de ter 2 ou 3 filhos para que tenham amigos é uma bobagem, pois nunca sabemos como serão. Segundo, isso que filho único é egoísta é outra besteira. A criação é o que conta, a educação é que vai fazer diferença. Conheço filhos únicos e filhos com muitos irmãos extremamente egoístas e egocêntricos.

A pobre mãe de 4,5 pareceu não resistir à minha fúria e completou:

-É… você tem razão, o que importa é a criação, é a família, é o que se aprende em casa. Mas ainda sou a favor de ter vários filhos.

Não foi naquele dia que me decidi por não ter mais filhos. Na verdade, quando disse “não” à pergunta dela, eu ainda tinha convicção de que “por enquanto, não”, mas com o passar do tempo, a ideia de ter um só filho foi se firmando em mim.

Quando meu pequeno nasceu, eu sentia a necessidade de ter dois filhos, meu marido também. Logo ele não quis mais ter outro e eu continuei querendo. Até que, por uma série de fatores, hoje posso dizer que minha família e eu nos sentimos completos sendo só três.

A decisão, obviamente, não é definitiva. A vida é longuíssima e sabe-se lá que necessidades de completude teremos daqui a alguns anos. No entanto, exijo que respeitem – verdadeiramente – a opção de minha família e respeitem meu filho único, porque eu respeito a opção de todos e não saio por aí questionando quantos filhos as pessoas têm e por que fizeram essa escolha.

Existem muitos problemas em ser filho único, assim como existe uma porção deles sendo você o primogênito de 3, 4 ou 5. Ou o do meio. Ou o caçula. Você nunca – nunca mesmo- estará livre das escolhas de seus pais quanto à procriação. Nem quanto à ordem de seu nascimento em sua família. Isso não implica que somos melhores ou piores, mais ou menos egoístas, assim ou assado.

O encarceramento social me incomoda. A sociedade, para compreender o caos, tende a colocar rótulos simplistas nas pessoas, nas coisas e nos momentos para sentir que tem algum poder sobre a realidade caótica que a cerca.

Desculpa, querida sociedade. Mas meu filho único não é o que você pensa que ele é e também é o que você pensa que ele é. Assim como todos nós, filhos únicos ou não, não correspondemos a rótulos estanques, tentar forçar para que alguém caiba na carapuça que você criou mostra, ao meu ver, uma leve tendência ao autoritarismo.

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Fernanda Barbosa é jornalista e mãe de um garotinho de 3 anos

Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro

Texto tirado do blog http://recordarrepetirelaborar.wordpress.com

Eu quero deixar aqui no meu blog alguns textos que eu gosto e que acabam se perdendo, porque nunca me lembro onde salvei, porque não sei usar a barra de favoritos, porque um dia este notebook vai dar pau ( bate na madeira) e eu vou, provavelmente, perder tudo.

Então, vou guardar aqui, assim eu leio de novo depois.

Eu sou essa gente que faz um monte de coisa que não dá dinheiro, que não tem carteira assinada, nem CLT.

Segue o texto:

Conversando sobre um amigo – digamos apenas que ele é da ˜área de humanas˜ – que se encontra em apuros financeiros, meu marido perguntou:

– Mas afinal, o que ele faz?

Minha resposta foi imediata, sem censura e sem rodeios:

– Ah, você sabe como é, faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

E foi aí que me ocorreu.

Quase todos os meus amigos podem ser definidos exatamente assim: gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

Tenho pouquíssimos amigos que construíram uma sólida e tediosa carreira de sucesso em alguma respeitável multinacional.

Meus amigos, quase todos, fazem, fizeram ou farão trampos de:

design gráfico, tradução, revisão, revisão ABNT, programação, decoração, consultoria de moda, webdesign, transcrição, preparação de originais, editoração, legendagem, publicidade, jornalismo, aula de inglês, de francês, aula em faculdade, em cursinho, mestrado, doutorado, com bolsa, sem bolsa, consultoria/assessoria/gerenciamento de redes sociais, assessoria de imprensa, produção de eventos, crítica de arte, de música, de cinema, cenografia, curadoria, agitação cultural, mapa astral.

Escritores, roteiristas, resenhistas, romancistas, colunistas, cronistas e poetas. Professores, palestrantes, repórteres, artistas e fotógrafos. Produtores, atores e diagramadores. Bailarinos, músicos e psicanalistas. Pós-graduandos em ciências sociais, antropologia e história. Estudantes de graduação em filosofia. Ou, para resumir com termos que nossos tiozões reaças entendem bem: “tudo puta, bicha e maconheiro” ❤

Um monte de coisas. Que não dão dinheiro. Nenhuma delas. Nem se juntar tudo.

E eu, que sempre me senti tão sem turma, tão sempre trabalhando quietinha e sozinha em casa, tão avessa ao mundo real repleto de gente com uma CLT na mão e o firme propósito de ganhar dinheiro na cabeça. Eu, que sempre me senti oprimida por aquela propaganda no metrô que mostra um jovem sorridente “decolando na carreira” depois de concluir seu MBA em administração. Eu, finalmente, sorri e me dei conta:

Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro – esse é o meu clube, essa é a minha vida.

Somos bichinhos estranhos, nós que somos gente de humanas e fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro. Pulamos de frila em frila sempre achando que o de agora vai durar e que o contratante vai pagar em dia. Ignoramos solenemente o fato de que o frila de 2009 pagava exatamente o mesmo que o frila de 2013. Acima de tudo, baseamos toda a nossa vida na convicção de que o próximo frila será melhor, mais interessante e mais bem pago que o atual.

Escrevemos, traduzimos, cantamos e sapateamos. Nosso talentos são múltiplos. Nossa versatilidade é incomparável. Nossa paciência é infinita. Nosso único defeito: não somos uma categoria unida. Se unidos fôssemos, estaríamos nos anúncios do metrô agora mesmo: “venha ser gente de humanas e fazer um monte de coisa que não dá dinheiro você também!” Mas não. Em vez disso, estamos aqui, cada qual surtando com seu próprio prazo e seu próprio cliente inadimplente – ou, no meu caso, tentando escrever mais um texto acadêmico e, em vez disso, escrevendo besteira no blog.

Tenho uma teoria de que nós, gente de humanas que fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro, só teremos nosso valor devidamente reconhecido pela sociedade o dia em que o governo quiser subsidiar a vinda de tradutores, fotógrafos, poetas e psicanalistas cubanos. Aí sim seremos importantes – aí sim seremos potência.

Até lá, continuaremos fazendo um monte de coisa – e fingindo para a nossa família e nossos amigos com carteira assinada que ganhamos algum dinheiro.